Na primeira noite, só o vi, na mesma mesmo ao lado da minha.
Há duas coisas a reparar de imediato: a altura e o bigode. Ponto final.
De resto, repara-se quando se entra.
Extravagante, rei daquilo tudo, dança até não poder mais, e quando já todos estiverem cansados, ele vai continuar até o bar fechar.
No final dessa noite, a primeira, a Mg. contou-me:
- Ele chegou ao pé de mim e perguntou-me "Onde é que foi a tua amiga com o maço ao de penduro?"
Ri-me, prestei pouca atenção, mal quis saber. E ainda bem. Foi tudo muito mais bonito.
Na noite seguinte, a história foi outra. Vi-o, e também o vi a olhar, era aquele, aquele que tinha dito que eu tinha o maço ao de penduro. E o meu maço continuava preso ao meu pescoço por uma guita, como em todas as noites algarvias com elas. Então movi-me, soube mover-me, e fui até à janela onde ele fumava, descontraído, ele longe mas mesmo assim o braço dele saía pela janela.
Claro que eu, com menos 40 centímetros, deixei de me saber mexer e tentei, desajeitada, fazer o mesmo que ele. E então, falámos. Melhor, ele falou.
- Não era mais fácil sentares-te ali? - e fez um gesto para o parapeito da janela.
Eu ri-me, sem vergonha, talvez com já algum álcool no sangue, mas pouco, apenas o suficiente para me rir sem corar, e segui o conselho, sentei-me no parapeito. E foi ele quem voltou a falar.
- És mesmo lisboeta!
Escondi a minha paixão pelo Porto, por aquela pronúncia e por todo o momento e ripostei:
- OS LISBOETAS SÃO BONS!
- São... - disse ele, na sua expressão calma - pra pegar fogo.
Ri-me, ele acabou o cigarro e eu fiquei sozinha a acabar o meu, a trocar olhares com todas elas. A Guida a rir, a Jéssica a desaprovar, e provavelmente as outras duas nem se aperceberam de nada.
Quando desci, juntei-me a elas de novo, e então ele, de uma maneira ou de outra, naquele jeito de sucesso, de rei, de coordeno, movimento, faço a festa e ainda te deixo cansada, pegou em mim, agachou-se para estar mais ou menos da minha altura, dançámos e segundos depois beijou-me.
E dançámos pela noite fora, ele a dar-me bailes na pista de dança, e eu a tentar a acompanhar, sem sucesso, até porque, como ele diz, ele é o Sucesso.
Saímos, puxa cigarro, puxa conversa e gargalhada, acabámos a noite à porta do meu prédio pelas cinco da manhã, eu, ele, as minhas amigas e o amigo dele, numa histeria de álcool, droga, alegria e liberdade. De números trocados e ouvi as primeiras palavras românticas sair daqueles lábios que ainda não tinham dito nada mais do que piadas sobre todo e qualquer ser daquele lugar:
- Amanhã quero ver-te.
E vimos, e os dias e as noites passaram, breves mas felicíssimas, espontâneas, livres como mais não podiam ser.
E numa noite, estivemos nas escadas, descalça, despe, beija, lambe, apalpa. Sexo.
Todas as noites me levava a casa, de mãos dadas, abraçadas, e pegava-me ao colo, fiquei sempre a mais de dois metros do chão porque ele elevou-me acima da sua cabeça. E toda a rua podia ver o meu rabo, o meu decote, e então? VERÃO. ALGARVE. AMIZADE. As minhas amigas e agora, o meu amor de verão que se estava a tornar em algo mais.
Todas as noites me cantou ao ouvido, todas as noites bebemos, todas as noites pedimos desejos a shots que bebemos juntos, nós e os outros, os rapazes não sei de onde, e as minhas amigas, as minhas lindas, as minhas meninas, foram momentos para nunca mais esquecer.
Uma noite, cantou-me aos altos berros, no meio da rua, numa dança romântica entre abraços e beijos, que se apaixonou ali, na praia da Rocha, e que comigo queria ficar, e rimava, mas não me lembro como, nem ele se lembra, e que nunca me iria largar.
E derreti-me nessa noite.
E noutra, cantou-me a Our Last Summer dos ABBA.
I can still recall our last summer
I still see it all...
E as noites melhoravam, e a cumplicidade, e a vontade de ficar mais um dia de praia, de piscina, mais uma noite naquele bar, naquele lugar, lugar Paraíso.
A última noite não posso esquecer.
Fomos até à marina, nós e todos os outros, fora aqueles que já tinham ido.
Uns no chão, outros no muro, conversa, frio e quando desistiram da conversa por causa do frio, voltámos para trás.
Abracei-o pela cintura. Passara aquele tempo todo a olhar, só a olhar, a sentir isto por dentro, esta dor, esta saudade, a sentir que talvez de tudo aquilo que tinha planeado para o meu verão - os cem rapazes, as mil bebedeiras e o milhão de gargalhadas - tivesse dado cabo da primeira.
Não era arrependimento. Mas era dor, e quando dói, dói.
Começámos a andar, quase chorava mas ele não notava, porque entre beijos que me deu, conversava com o amigo.
Mas não consegui quando comecei a ouvir, do telemóvel dele:
I can still recall our last summer
I still see it all
Walks along the sein
Laughing in the rain
Our last summer
Memories that remain...
Que se lixe, desmanchei-me em lágrimas.
Então, ele agarrou-me na cara com as duas mãos e disse-me:
- Eu venho ver-te, tu vais ver-me - tinha o meu isqueiro - e só to dou quando vier cá. E depois ficas tu com ele, e só mo dás quando fores ao Porto. E nós vamos ver-nos, fica aqui prometido. Não te quero ver chorar. O teu sorriso é o que tens de melhor. Naquela noite - aquela, em que ele reparou mas eu só lhe vi a altura, o bigode e a mestria da dança - vi-te na esplanada, a dançar a La Tortura, não paraste um bocado e tinhas o teu sorriso lindo sempre... é assim que te quero ver. Acredita, esta é a primeira última noite de muitas.
Limpou-me as lágrimas, desligou a música que não me saiu mais da cabeça até hoje.
Chorei o caminho todo até casa, mas sempre me faz sorrir, sempre o adoro, sempre me diverte e me faz sentir que estou no paraíso. O meu homem, de dois metros, o meu homem divertido, com pronúncia do norte, o meu homem que joga basquet profissional e que fuma demasiado. O meu, meu, meu, e quero tanto tê-lo de novo, como naquela noite nas escadas da praia.
A verdade, é que estou muitíssimo perto de descobrir se irá cumprir com tudo o que diz.
Amanhã, antes das quatro da tarde vou estar à sua espera em Santa Apolónia, de dedos cruzados a pedir com força que ele apareça no comboio que vem do Porto desde a uma. Amanhã, se tudo correr como desejo tanto, vamos os dois estar a dormir na casa da minha avó - cada um na sua cama, mas hei-de escapulir-me uns instantes para ao pé dele - e vamos estar a assumir que esta história não vai ter fim...
E eu adoro, adoro tudo isto
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