Assisti a uma cena bonita enquanto fumava um cigarro à janela, pelas onze e meia da noite.
Um Opel cinzento a chegar. Entrou na minha rua, deu a volta num lugar de estacionamento livre e parou na faixa contrária àquela por onde vinha. A porta de trás abriu-se, e saiu de lá uma rapariga de botas pretas e boina cor-de-rosa clara, com qualquer coisa na mão. Parou ao lado do carro, depois de fechar a porta. Uns momentos a seguir, saiu uma rapariga de branco, do lugar da frente. Ninguém saiu do lugar do condutor.
Os faróis iluminavam toda a rua até lá à frente, de onde eventualmente a minha mãe poderia chegar e eu teria que apagar o cigarro na janela e meter-me na cama depressa. A rapariga de branco deu a volta ao carro e inclinou-se para a janela aberta do condutor.
Não tinha ângulo de visão para perceber se era exactamente isto que acontecia, mas presumi que ali haviam beijos e festinhas no cabelo e no rosto, e "Amo-te muito, até amanhã", e "não quero ir embora" como resposta.
A rapariga da boina já se afastara para o prédio. Ficou ali, com a típica expressão aborrecida de quem espera sem paciência que a amiga e o namorado se despeçam finalmente.
O carro começava a avançar com lentidão, quase imperceptivelmente. A rapariga acompanhava-o sem esforço, ainda pendurada com os cotovelos lá dentro.
Pst! - a paciência da de boina esgotou. Mais um riso alto dentro do carro, mais um beijo - presumi - e ela foi-se embora, olhando mais uma vez para trás, enquanto o carro se afastava agora a uma velocidade decente. É nesta parte que a amiga da namorada festeja o seu momento de glória: vai finalmente poder entrar em casa.
Connosco, a história seria outra. Seria mais bonita ainda e ia deixar muitas como eu, à janela e sonhadoras, a adormecer a pensar no que teria acontecido depois daquilo a que elas poderiam assistir.
Tu ao volante, eu pendurada na janela do teu Opel e ela no prédio, aborrecida.
A partir desta parte.
Dava-te um beijo nos lábios e afastava-me do carro enquanto tu voltavas a fechar o vidro. Atravessaria a estrada no silêncio das noites por aqui, e apressava-me a chegar àquela que morava comigo, fosse quem fosse. Vinte segundos de conversa, um beijo na testa, um até amanhã. Se fosse uma verdadeira amiga, um sorriso chegaria para dizer tudo o resto.
Entrava outra vez no teu carro. Subia o volume do teu carro, inundando aquele lugar da tua música pesada, mas nem sequer me importava. Para eu aceitar, basta-me que tu gostes.
Paramos em frente à farmácia, de porta fechada. Só há um pequeno buraco na porta, com espaço suficiente para passarem caixas e a máquina do cartão de crédito, e mãos largas.
Eu espero no carro, de vidros fechados.
(...)
O carro está parado acima da praia, a uns bons metros do mar. Podemos ver o areal e o mar escuro, com rasgões brancos. A lua brilha, em quarto crescente, ou decrescente, ou seja lá o que for. É crescente, penso, sempre me disseram que a lua é mentirosa.
Passamos para o banco de trás. O meu casaco já saiu enquanto estava lá à frente, apresso-me a desfazer-me do dele e já agora, da camisola também. Não tenho frio.
Os Metallica acompanham o momento - não que adore, mas é melhor que muitas outras.
Sinto a tua pele, arranho as tuas costas, lambo o teu pescoço e o meu corpo está colado ao teu.
Sentada em cima de ti, uma perna para cada lado do teu corpo, sou roubada. Fiquei sem camisola e desconfio que também me vais levar as calças. Não demorou muito a acontecer.
O teu cinto desapertou-se, as tuas calças de ganga desceram e tu tratas de as tirar e atirar lá para a frente. Por esta altura, já são os Linkin Park que cantam para nós, ou lá o que é aquilo. Uns minutos mais tarde, estamos nus e quentes, desejosos e prevenidos e tudo o que tiver que acontecer, acontecerá.
Não sou capaz de deixar de te tocar - Staind - e sinto-me cada vez mais perto de ceder e a melhor sensação é que não me sinto a mim própria a impedir-me de nada.
Somos nós, o Opel, várias vozes, as ondas, a lua e a noite.
Não, agora não somos só nós. Vemos os faróis de um carro a iluminar o dele, dando visão para tudo lá para dentro - incluindo os nossos corpos, o meu cabelo despenteado e... onde é que estão os óculos dele?
Enterro a cabeça para um lado e ele para outro. O meu coração bate depressa. Estamos prestes a ouvir alguém bater no vidro e mais tarde, a ser encaminhados para a esquadra. Pareceu passar uma eternidade.
Finalmente, as luzes desapareceram, ouvindo-se pneus movimentarem-se pela terra batida. É uma perfeita sintonia quando voltamos a levantar-nos.
- Faz amor comigo.
Fui eu que disse isto? Fui. Porra, fui mesmo. E então? Então nada. Aliás: então tudo.
Vidros embaciados, o lugar romântico, o homem da minha vida - Foo Fighters. Os beijos dele percorreram o meu corpo, a minha língua percorreu o dele, deitados nos estofos frios, corpos quentes, suor. Ele senta-se no lugar do meio, assumindo a liderança. Agora é com ele. Olha-me nos olhos. E eu fecho-os, beijando-lhe a testa - Daft Punk.
It might not be the right time
I might not be the right one
But there's something about us
I want to say
'Cause there's something between us anyway"
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