Hei-de escrever-te até ao dia em que te esquecer. Talvez te escreva para sempre.
Hei-de sonhar que recebes as minhas cartas, estas cartas, como são hoje em dia, escritas com uma letra que não é a nossa, escritas com letras falsas. Hei-de sonhar que lês estas cartas que nem tenho coragem de enviar. Hei-de sonhar que os nossos dias afinal não acabaram, e que isto não são só memórias e alucinações, hei-de sonhar que nunca estivemos separados. Hei-de sonhar com tudo o que vivemos e tudo o que ficou por viver. Hei-de sonhar que o Porto é o nome da rua a seguir à minha, hei-de sonhar que moro a três minutos de ti.
Hei-de sonhar que somos quase como um só, de mãos dadas por todas essas ruas.
Hei-de escrever-te. Hei-de ouvir as músicas que ouvi contigo, cantei contigo, dancei contigo, hei-de ouvir as músicas que testemunharam o nosso amor, as letras que sei de cor, hei-de lembrar-me do ritmo que seguíamos enquanto fazíamos amor.
Hei-de sonhar-te toda a vida, porque já falei muito, já escrevi muito, e só agora sei que a todos escrevi demais, porque essas palavras que usei eram tanto mais que a realidade. A realidade do amor, da dor, a real felicidade, plenitude, está em ti e em mim, quando juntos.
A realidade da vida está em nós. Está no meu riso contigo, no meu corpo contigo, na minha alma contigo, a realidade da vida está em NÓS, TU e EU é a única realidade que quero viver.
Não sei porque fiz isto. Perdi o controlo da minha própria vida, perdi a crença no Conto de Fadas que queria viver, perdi tudo, perdi-me.
Hei-de escrever-te mil cartas. Destas, sem coragem, estas que não se enviam, estas que vão ficar por ler.
Hei-de dar-te nestas palavras este mundo e o outro, tudo aquilo que te queria dar, hei-de dar-te os sonhos, hei-de contar-te como correu o meu dia, hei-de chorar e sorrir contigo, porque cá dentro, no meu coração, sou tua e não quero deixar de ser.
Sem ser tua, sou de quem? Não quero ser de mais ninguém. Eu sou tua, mesmo longe, mesmo não sendo, quero que saibas.
Não sou minha, não sou do mundo, não sou da minha mãe nem do céu nem do nada. Sou tua. Plenamente. Neste estado de meia-vida, neste estado de meia-morte, sou tua, todas as manhãs, tardes e noites. Todas as madrugadas. Sou tua em todas as ondas que rasgar, em todos os sorrisos que se rasgarem, sou tua em todas as lágrimas.
Sabes o que é querer-te acima de tudo na vida? No mundo?
Perguntei-te isto hoje, disseste-me que sim, mas acho que não sabes.
Acho que não entendes que dava tudo o que tenho, dava tudo o que me preenche, dava tudo o que completa os meus dias, o que me alimenta, o que me faz rir. Dava o dinheiro que não ia significar nada, dava amigos, dava mortos e vivos, por mais horrível que isto possa soar. Dava virtudes, dava facilidades e dava tudo aquilo que antes julgava ser importante e afinal, eu podia muito bem viver sem isso. Abdicava deste mundo e do outro para saber que afinal estávamos enganados, que afinal a vida é fácil, que afinal eu não fui mais fraca as dificuldades que ela traz, que afinal, no final, moras mesmo aqui ao lado e sim, poderíamos passear de mãos dadas por todas estas ruas, e exibir o amor, arrogantes, divertidos, à chuva e ao sol, noite e dia, contigo, haveria de deixar um rasto de amor por onde quer que passasse.
Dava tudo. TUDO. Entendes o que é tudo?
Porque se te tivesse de novo, meu amor, aqui perto como sempre te quis, eu teria este mundo e o outro de novo, teria tudo o que preciso. O nosso amor alimenta-me, faz-me esquecer a fome do que não preciso de comer, faz-me esquecer a sede do que não preciso de beber, o nosso amor aquece-me. O nosso amor faz-me rir, o nosso amor preenche-me.
O nosso amor faz-me esquecer as coisas más da vida.
O nosso amor é um lar.
Tu és.
Tudo. Dava tudo. 10/Setembro/2011
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